Sede

A figura do deserto de fato nunca me atemorizou muito. A não ser por uma dura realidade que ele ostenta sem o mínimo de recalque: a sede. Talvez seja a minha solidão  que é tão particular procurando residência, talvez a agitação que tão rapidamente se instala nos meus sentidos pedindo sossego… mas o que sei, é que estar só não me faz tão mal assim.

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O barulho e as presenças (que são muitas) dentro e fora, não respeitam o tempo.
Mas outra Presença pede espaço.
Pede a vez.
Espera paciente num canto discreto, onde a pressa e superficialidade ficam da porta para fora.
Num deserto cultivado pela necessidade de correr contra o tempo, de cumprir obrigações, corresponder expectativas, satisfazer necessidades profundas, a morte certeira se preanuncia.
Tenho sede.
Sede, que não tolera água suja, mas pede o alívio de uma nascente que jorre vivificante e límpida.
(…)

Oásis.
Mergulho que faz vivo e que traz a certeza de  haver algo mais num lugar onde por hora e outra anseio nunca ter saído.
No deserto encontro o caminho para o encontro.
Na sede que me vêm de um silêncio pulsante, na verdade necessitada por despir-se, na intimidade ansiosa por concretizar-se.

E por fim,

Transbordo.

Alice Matins – Rede Sanctus